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A angústia da Copa

DRA. KARINA A. P. LEITE CALDERONI – MÉDICA PSIQUIATRA

Enfim chegou o dia. Hoje ocorrerá a abertura da Copa do Mundo no Brasil.

O país que sempre foi conhecido como o “país do futebol”, onde o povo tem a fama de alegre, festeiro, brincalhão e otimista, com a única seleção de futebol do mundo com cinco títulos conquistados, parecia ser o cenário perfeito para uma grande festa.

No entanto, algo aconteceu no meio do caminho e hoje, prestes a começar o evento mais importante para o futebol mundial, não é esse sentimento de otimismo e felicidade que se observa. Pelo contrário, espera-se para esse dia inúmeras manifestações e protestos por todo o país. Frases como “Não vai ter Copa”, “Nossa Copa é na rua”, “FIFA go home”, “Queremos hospitais padrão FIFA” foram se multiplicando nas redes sociais e na boca das pessoas, que querem ir para as ruas expressar sua indignação.

Ao mesmo tempo em que a tônica é de revolta e protestos, a medida em que foi se aproximando o dia da estreia, fomos percebendo as pessoas divididas internamente, com uma ambivalência de sentimentos. Por um lado a frustração, o desânimo e a insatisfação com os rumos do pais. Por outro, há ainda uma vontade de torcer, de curtir os jogos, de enfeitar a casa, de gritar GOL e de ser campeão. Fica uma certa tristeza coletiva por querer vivenciar esses momentos e ao mesmo tempo não conseguir, não ter ânimo para isso por ter consciência de uma dura realidade, que não se modificará com títulos ou troféus.

Podemos comparar essa condição do brasileiro com vários momentos de nossa vida pessoal. Quantas vezes na vida e no nosso processo de amadurecimento não passamos por situações semelhantes emocionalmente? Quantas vezes vivenciamos uma ambivalência e até um conflito de sentimentos? Nessas fases é comum haver angústia e vontade de chegar a uma resolução rápida, como se pudéssemos sempre escolher um dos dois lados.

A busca nesse caso deve ser pela reflexão e pelo autoconhecimento. Tentar entender e perceber quais as razões que nos levam aos dois sentimentos aparentemente opostos, descobrir o que está por trás, que motivações ou que frustrações são essas. Tendo essa maior consciência nem sempre chegamos a uma resolução do conflito, mas temos mais clareza dele e assim, maior liberdade para escolher um caminho ou outro.

Voltando ao exemplo da Copa, podemos considerar que um dos problemas talvez tenha sido o excesso de expectativas. Quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo 2014, o país vivia um momento de grandes conquistas, desenvolvimento, crescimento econômico, reconhecimento internacional, aumento do poder de compra de grande parte da população. Tudo parecia conduzir a um cenário em que a Copa do Mundo viria para celebrar essa grande transformação nacional com a “contagiante” alegria típica do brasileiro. Esperava-se que seríamos campeões em casa e que ainda seria deixado um legado de benefícios e infraestrutura. Será que hoje há a frustração por ter esperado demais?

No último ano, alguns dizem que “o gigante acordou”. Aparentemente o brasileiro percebeu que o desenvolvimento parou num ponto em que não consegue trazer mais qualidade de vida ao povo. Esperava-se um país em que a transformação viria também em áreas como saúde, educação, cultura, mobilidade urbana e segurança. Então, além de ter havido grandes expectativas em relação ao futuro, também houve uma maior consciência dos nossos problemas. Sempre que nos damos conta das nossas fraquezas e deficiências, isso vale também para a vida pessoal, geramos sentimentos de frustração, menos valia, baixa autoestima e revolta. Assim, fica difícil celebrarmos alguma coisa e mantermos a motivação.

Por outro lado, por que ainda existe no fundo uma vontade de torcer e celebrar? Por que, às vésperas da abertura, começamos a ver tímidas bandeirinhas do Brasil nos carros, ouvimos pessoas testando os fogos e cornetas barulhentas, as ruas foram pintadas de verde e amarelo e a maioria das pessoas já combinou com familiares e amigos de assistir ao jogo pela televisão? Sempre esteve muito presente no brasileiro o gosto pelo futebol, a euforia ao ver a seleção ganhar e trazer o troféu, como se fizéssemos parte da vitória, como se pudéssemos ser vitoriosos também. Sempre houve a necessidade de acreditar em alguém e de encontrar um ídolo para se identificar. Mudar os padrões de pensamento e comportamento de uma população é tão difícil quanto mudar os nossos próprios padrões individuais, ou seja, ainda queremos voltar a ser aquele povo alegre, festeiro, brincalhão e otimista.

Momentos de conflito como esse sempre geram angústia. Nem sempre chegamos a uma simples conclusão. Não existe um lado certo e um lado errado. Tanto o sentimento de revolta como o de vontade de comemorar são válidos porque são reais. Saber reconhecer a existência dessas duas forças e, se possível, compreender suas origens nos ajuda a lidar com esse conflito. A tendência é com o tempo as emoções se reorganizarem e retomarmos a liberdade de transitar entre um extremo e outro no momento em que nos for mais conveniente. Ou seja, saber protestar quando precisar e comemorar quando quiser, sem perder o senso crítico.

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