Crimes em família & saúde mental

MARINA ZUPPOLINI BARBI – PSICÓLOGA

Nas últimas semanas, a mídia noticiou, com bastante empenho, casos de violência que parecem sem explicação. Casos como o do garoto, que supostamente assassinou familiares e depois se matou, ou da mãe, que teria matado as duas filhas para depois tentar se matar. Trabalhando com pacientes psiquiátricos e suas famílias, o que mais ouço nessas últimas semanas tem sido: meu filho vai fazer o mesmo comigo? Não seria melhor prolongar a internação? Pessoas começam a perguntar: como podem se proteger desses “loucos” que surtam e destroem famílias?

Frente ao atordoamento que esses casos provocam, a tendência é buscar respostas naquilo que parece longe da realidade da maioria, nos excluídos, na “loucura”. A sociedade se apavora ao ler tais notícias e ao pensar que o mesmo poderia ocorrer dentro de sua própria casa. Por conta disso, rapidamente rechaça a ideia, atribuindo esses atos a “surtos” pontuais que apenas acontecem nas famílias dos outros. Pois bem, esse raciocínio traz algumas consequências: uma falsa sensação de segurança; alívio por ter encontrado uma explicação; um preconceito cada vez maior da sociedade em relação ao paciente psiquiátrico; e o pavor das famílias dos doentes mentais, que assistem aos “debates” de “especialistas” da TV sobre a doença de seus filhos.

É importante frisar que diversas pesquisas mostram que o índice de violência cometida por pacientes psiquiátricos é menor do que a cometida pela população geral, ou seja, por aqueles que estão ao redor justamente daqueles que julgam estarem seguros por não ter, em seu círculo de amigos e familiares, um “louco”.

Casos como esses anunciados recentemente na mídia são raros e muitas vezes não têm uma explicação que agrade ou conforte as pessoas. Porém, basta algum “especialista” falar, em um programa de TV, que existem fortes indícios de que tal assassino sofria de “depressão”, “esquizofrenia” ou “transtorno bipolar” para que as pessoas se convençam de que o doente mental é violento e deve ser colocado à margem da sociedade.

Parece cruel? Bem, a menos tempo do que gostaríamos de admitir isso era feito em manicômios. Definitivamente, esse não é o caminho. O paciente psiquiátrico precisa de tratamento, não para que ele não fique agressivo e, sim, porque precisa, deve e é capaz de integrar a sociedade.

Discuto bastante esse tema com os pacientes e famílias que atendo e, muitas vezes, fico com a impressão de que o paciente e sua família têm vergonha do diagnóstico psiquiátrico. É como se o nome da doença automaticamente incapacitasse o paciente a ter uma vida normal e o condenasse ao esconderijo. Enquanto isso, as famílias se culpam, se envergonham por acharem que são culpadas por aquilo, que não souberam criar seus filhos corretamente.

Na minha opinião, o que falta é informação e conhecimento sobre as doenças psiquiátricas. Falta de conhecimento leva a preconceitos que não ajudam ninguém a ficar mais seguro e imune à violência.

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