Desafios de cuidar da pessoa com Alzheimer

MARCELO BRUNO GENEROSO – MÉDICO PSIQUIATRA

Cuidar de uma pessoa com Demência de Alzheimer é algo bastante trabalhoso e com significativo impacto no cotidiano da pessoa que se propõe a assumir esse papel. Em nosso país, a grande maioria dos cuidadores são pessoas próximas ao paciente como esposas, maridos, filhos ou filhas que concordam em assumir responsabilidades e funções antes exercidas pelo paciente quando esse tinha autonomia e independência preservadas. Essa proximidade de relação traz à tona diversos sentimentos e emoções vividas por essa dupla através dos anos, podendo deixar a rotina bastante delicada. Sem dúvida, o desafio é grande. Mais difícil ainda talvez seja presenciar a erosão da memória de experiências compartilhadas à medida que o prejuízo cognitivo avança.

Uma pessoa com Demência de Alzheimer cursa com perda progressiva de capacidades, necessitando, com o passar do tempo, de maior assistência para tarefas cada vez mais simples. Isso exige que o cuidador exercite diariamente sua capacidade de resolução de conflitos, adaptação e resiliência não apenas em relação ao paciente, mas também em relação às suas próprias expectativas e frustrações.

O papel de cuidador envolve desafios como a importante carga emocional diária enfrentada, a fadiga e exaustão à medida que as necessidades do paciente aumentam, o isolamento e a solidão muitas vezes experimentados e complicações financeiras decorrentes do tempo dedicado ao paciente ou aos custos envolvidos no tratamento. Engajados em suas tarefas diárias, é comum que os cuidadores se esqueçam da própria saúde física e mental, ficando vulneráveis a transtornos ansiosos e depressivos, por exemplo. Muitas vezes, o cuidador julga não poder pedir ajuda.

Ainda que emocionalmente trabalhosa, a oportunidade de cuidar de um familiar com Alzheimer pode ser vista como algo positivo por muitas pessoas, mas o que elas apontam como aspectos positivos e até mesmo agradáveis?

  • Sentir que o vínculo entre os dois está fortalecido
  • Resolução de conflitos prévios com o paciente ou outros familiares através da compaixão
  • Compartilhamento de memórias
  • Orgulho e sentimento de dever cumprido pelo protagonismo assumido
  • Possibilidade de cumprir com uma obrigação ou responsabilidade que julga ser sua
  • Capacidade de tomar decisões proativas
  • Gratificação ao perceber que seu cuidado está evitando a internação do paciente
  • Simples momentos de sorrisos

Esses sentimentos, sem dúvida, não são permanentes e imutáveis, pois a dinâmica da rotina de cuidados é fluida, havendo, como em qualquer relação, dias melhores e piores. Perceber pontos agradáveis no ato de cuidar pode levar à diminuição do estresse e de sintomas associados à essa função, tornando o dia-a-dia um pouco mais leve. Tão importante quanto esses itens, talvez seja a oportunidade de retribuição do amor e cuidado antes recebidos.

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