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Fracasso escolar: a culpa é de quem?

PAULA SARETTA – PSICÓLOGA ESCOLAR

Um dos grandes temores de professores e familiares é o baixo desempenho de alguns alunos que, por inúmeros motivos, “não aprendem”.

É frequente ouvirmos explicações ou argumentos que justifiquem tal comportamento, extremamente simplistas e reducionistas e, por vezes, até preconceituosas e discriminatórias. Argumentos como “ele vem de uma família desestruturada” ou “os pais não têm condições de ajudar” ou até “não tem livro em casa”. Ou que a culpa é da escola que tem uma péssima estrutura e professores mal qualificados, etc. Nestes exemplos, o que podemos perceber é que a responsabilidade do baixo desempenho de um aluno recai exclusivamente ao meio em que ele vive.

No outro extremo das justificativas, encontramos opiniões que remetem diretamente ao suposto problema do aluno, como se ele tivesse algum déficit cognitivo “de nascença”, como se, para ele, estudar (e aprender) não fosse “sua praia”, como se ele não tivesse “jeito para estudar”.

A grande questão é que culpar ou responsabilizar a sociedade (os pais ou a escola) ou, então, o próprio aluno “desmotivado” e “incompetente para o estudo”, demonstra um funcionamento social bastante comum: a lógica da busca “incessante” por culpados…

Alguém tem que se responsabilizar, não é? Essa lógica de funcionamento não só não auxilia na compreensão da complexidade do problema do chamado “fracasso escolar”, como também pode ser, por vezes, extremamente injusta e até cruel com quem está sendo acusado (seja escola, a família, o aluno).

Para deixar claro do que estamos falando, defendemos que o fracasso escolar é um fenômeno construído social e culturalmente. Não podemos deixar de considerar que existem dimensões fundamentais, complexas nessa construção pensadas também a partir do momento histórico-cultural em que vivemos. Em outras palavras, o fracasso escolar, necessariamente, deve ser analisado a partir da dinâmica, da relação de todos os envolvidos, a escola como instituição social, o aluno e sua família. Todos igualmente frutos dessa mesma construção histórica e social. Para sermos mais sucintos, nesse artigo, vamos trabalhar apenas com uma dessas dimensões da “não aprendizagem”: a relação do estudante com o mundo atual.

Ou seja, uma das dimensões desse “não aprender”, vamos dizer assim, está na relação do estudante com o mundo em que vivemos. Numa sociedade em que o valor está em ter coisas, em ganhar dinheiro, em ter um corpo desejável, em ser popular e “admirado” pelos colegas pelos seus bens materiais, qual é, de fato, o valor que os alunos adolescentes, por exemplo, dão ao conhecimento?

Conversando com adolescentes do Ensino Fundamental II, por exemplo, tantas vezes, me questiono: “quais os sentidos de escola que eles estão construindo? Por que eles desejam (ou não) aprender algo? Qual a razão que eles possuem para aprender ou saber algo novo?”

A meu ver, um dos grandes desafios que temos que enfrentar como formadores (professores, psicólogos escolares, etc.) é exatamente o resgate do valor do aprender, do desejo de SER e não de TER.

Ser alguém que pensa o mundo criticamente por meio da construção do conhecimento, ser alguém que tem uma inserção social diferenciada pelo saber, por conhecer o funcionamento das coisas da vida, por conseguir refletir além do que enxergamos… Ser alguém que entende que aprender é prazeroso e que isso merece, sim, dedicação e envolvimento afetivo. Merece  porque é assim que nos constituímos como humanos, é assim que conseguimos crescer como pessoas.

Convidamos você que está nos lendo a refletir sobre tudo isso. O que você acha que responderia uma criança ou adolescente hoje, se questionados “qual o valor que você atribui à aprendizagem escolar?” E você, qual o valor que você atribuía ou atribui ainda hoje?

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