Morte de Amy Winehouse. Vítima de si mesma, da sociedade, das drogas?

Suicídio lento, programado, acaso, curiosidade mórbida, dependência química, tristeza, omissão de socorro, falha de caráter, etc.

Desde o falecimento da cantora Amy Winehouse, ouvi, li e assisti diversas opiniões sobre o assunto. Foram as mais variadas possíveis, pessoas fazendo brincadeiras, pessoas com raiva da repercussão grande achando que ela tinha mesmo que morrer, que o governo deveria ter programas de internações compulsórias para esses casos, que foi escolha dela, que não foi escolha dela. Cada um com sua justificativa lógica e perfeitamente bem explicitado.

Fato é que independente da causa de sua morte, trata-se de uma patologia psiquiátrica grave que a matou, associado a uma contenção familiar e social que não foi capaz de evitar o desfecho trágico.

A morte de Amy pode nos levar a uma reflexão sobre o que leva uma pessoa aos comportamentos autodestrutivos, a essa necessidade de viver a vida de forma intensa, ao vício das drogas e do álcool, aos relacionamentos instáveis, a automutilação seja ela por meio de laminas, agulhas, drogas ou mesmo comportamentos.

É evidente que eu não tenho a fórmula mágica que pode evitar esses desastres, mas sei que algumas coisas podem ser feitas e gostaria de compartilhar as minhas opiniões, infelizmente não para salvar Amy, mas para as próximas gerações que estão por vir.

Os primeiros anos de vida são fundamentais para a formação da personalidade de uma pessoa. Repassem isso ao maior número de pessoas possível! Guardem essa frase, lembrem-se disso. Estou em uma fase da minha vida que meus amigos estão tendo filhos e noto a preocupação deles com as doenças, infecções, alimentação e quero que todos saibam que tão importante quanto isso é a preocupação com a formação da personalidade.

A personalidade de uma pessoa é fruto do caráter e do temperamento. Algumas características são determinadas geneticamente, e isso é o temperamento da pessoa, outras são aprendidas e formadas em resposta ao ambiente que a pessoa vive. A maneira como a pessoa é criada. O afeto recebido, os limites e parâmetros que foram dados.

Um dos maiores problemas que enfrentamos atualmente em termos da personalidade,  das pessoas que podem ser ou não doentias, é o que chamamos de baixo índice de tolerância às frustrações. Todos nós somos frustrados diariamente e temos que lidar com isso de alguma forma. Muito do que planejamos não sai de acordo com os nossos desejos. E é desde a primeira infância que aprendemos a lidar com essas situações. Se ao repreendermos uma criança e ela começar a chorar, tremer, gritar ou até mesmo se bater, e diante disso voltamos atrás de nossa decisão estamos passando a seguinte mensagem para ela: basta espernear que você consegue atingir seus objetivos. Não faremos isso então com nossos filhos. Óbvio não? Mas na prática algumas pessoas não percebem que estão fazendo isso. É mais fácil dar logo o objeto de desejo do que orientar e dar parâmetros e os pais muitas vezes estão cansados e culpados por trabalharem demais e não suportam ver seus filhos chorando, e acaba tomando um atalho. Esses atalhos tomados sucessivas vezes criam pessoas que não aprenderam na hora que deveriam aprender a lidar com essas frustrações. E quando adultos não suportam a vida como ela é, não suportam ouvir os nãos que a vida nos fala, não conseguem lidar com a expectativa de aguardar ter um dinheiro para conquistar seus objetivos. Acabamos de perceber como formamos adultos que acreditam que tudo ao seu redor existe em sua função. E que sempre vai haver um jeito de conquistar seus objetivos, seja como for.

Essas pessoas quando tornam-se adultos sofrem muito, pois acreditam que há uma forma do mundo dar o que elas desejam, e ficam tentando chamar atenção de várias formas para receber o objeto de desejo, porém a vida adulta faz com que nossos objetos de desejo nem sempre sejam objetos e sim pessoas, ou custem muito dinheiro, ou dependam de outras pessoas para que possamos conquistá-los. E essas pessoas que não aprenderam a se frustrar lá na primeira infância quando era mais fácil negar aquele brinquedo ou doce, acabam deprimindo acreditando que o mundo é cruel e não responde às suas expectativas e buscam outros atalhos para amenizar o sofrimento. Aí aparece o uso de substâncias picotativas legais, ilegais, prescritas ou não. Aparece também a automutilação com o objetivo de, ás vezes chamar atenção, ás vezes fazer com que o sofrimento físico alivie a dor psíquica, outras com a intenção de marcar os limites do corpo, ou mesmo para se punir por não conseguir agir de forma diferente.

O padrão de relacionamento dessas pessoas é muito instável, sempre muito intenso, as pessoas amam ou odeiam com uma grande facilidade. Quando ouvem os nãos da vida odeiam as pessoas, se sentem muito mal. Novamente porque não aprenderam a lidar com isso no momento certo. E estão sempre buscando a pessoa que irá lhe falar sempre sim, mas como isso é praticamente impossível acabam sofrendo mais e mais, e ficando sozinhas. Quando acham que acharam a pessoa correta, querem exclusividade, tem um relacionamento muito intenso, vivendo de forma simbiótica a vida daquela pessoa. Até o momento que passem a odiar a pessoa e nunca mais querem vê-la na frente.

Amem seus filhos, dêem muito carinho, atenção. Saibam que amar também é falar não, é deixar chorar e não permitir que conquistem seus objetivos através de manipulações,  choros, ameaças e até doenças. Sim doenças de verdade, conheço uma pessoa que sempre que tinha crise asmática ganhava brinquedos e atenção de seus pais, essa pessoa aprendeu que crise asmática é sinónimo de receber afeto, carinho, presentes. Hoje sofre de asma grave e tem crises sempre que é frustrada. Mas é possível isso, ela realmente tem os sintomas da Asma e a causa é psíquica? Nunca duvide do seu cérebro. Ele comanda tudo!
Amy, infelizmente, tornou-se uma pessoa despreparada para ouvir os nãos, tornou-se uma caricatura de si mesma. Hoje o mundo está mais triste, mais blues.

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