O que nos falta?

SIDNEIA PERES DE FREITAS – psicóloga e neuropsicóloga da Clínica Sintropia

Alguns textos do nosso blog, escritos recentemente, fazem referência a uma discussão de como às vezes existe um vazio que tentamos preencher de várias maneiras.

A vida moderna nos empurra para o infinito do correr com as coisas, do esgotar, do corresponder, do criar e nos breves momentos em que convivemos conosco, com nosso eu essencial e verdadeiro, percebemos que estamos sempre em dívida, sempre falta alguma coisa a ser feita, a ser entregue em alguma data, alguém que deixamos de ligar entre outras coisas.

Algumas pessoas que, no dia a dia, percebem essa condição no outro podem sugerir que é falta de algo ligado a religiosidade, outras que é falta de ocupação ou que indo mais a festas pode melhorar ou que fazendo esportes se ajustam mais facilmente.

É muito comum a busca de preenchimento através de prazeres passageiros, afinal temos muito mais deveres que prazeres nessa vida corrida e o grau dessa busca vai determinar e resguardar os extremos.

Podemos comer chocolates ou doces como forma de obtenção de momentos felizes, podemos cometer alguma irresponsabilidade menos relevante, ir às compras…

Nesse momento, pensamos onde se encontra facilmente alívio para essas e outras questões da vida, para os nossos medos, decepções, lidar com nossa realidade, nossas impossibilidades se torna um confronto muitas vezes desleal, porque não aprendemos quais as armas que teremos que desenvolver para lutar contra esses processos da alma.

E, nesse contexto, as questões associadas ao uso de drogas, onde existe uma correlação entre fatores de ordem psicológica, social, cultural, familiar, entre outras está inegavelmente relacionada a uma condição emocional de falta que impulsiona a sua utilização e determina um ciclo que parece nunca se fechar.

As pessoas que fazem uso de substâncias que alteram a consciência, como álcool, cocaína, crack entre outras o fazem porque sentem prazer ou curtem seus efeitos, associando o uso de drogas como forma de alcançar o que pareça inacessível: ultrapassar os próprios limites, buscar o prazer máximo, diminuir tensões e sofrimentos, inserir-se na sociedade e até obter sucesso.

Nesses casos, o uso de drogas pode passar a preencher as fendas existentes na personalidade do indivíduo, sempre que se deparar com uma dificuldade, em qualquer âmbito de sua vida, o primeiro recurso para amenizar esse fluxo de emoção será o uso da droga, tornando-se uma poderosa fonte com propriedades de reforço e esses aspectos combinados podem evoluir para um uso contínuo com problemas de toda ordem.

Que buraco existencial é esse que necessita ser preenchido em seu esgotamento e intensidade? Que em inúmeros casos, dispensa e negligencia os sentimentos mais básicos e mais complexos por uma transitória saciedade que leva inevitavelmente a pessoa a perceber o mundo pela ótica da falta.

O processo de olhar profunda e verdadeiramente para nosso jeito de resolver e enfrentar o cotidiano pode ser uma medida inicial transformadora. Às vezes admitindo a necessidade de ajuda profissional ou através do autoconhecimento, criando estratégias psicológicas, alterando o modo como a lidamos com nossa subjetividade e reagimos às situações da vida.

SIDNEIA PERES DE FREITAS – psicóloga e neuropsicóloga da Clínica Sintropia

Posts Relacionados

No Comments Yet.

leave a comment