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O Risco do Elogio

DR. DOUGLAS MOTTA CALDERONI – MÉDICO PSIQUIATRA

Todos querem que seus filhos sejam felizes, realizados e bem sucedidos. Como a geração anterior era muito rígida com os filhos e até mesmo agressiva (castigos corporais, broncas constantes, exigências e até uma frieza com filhos), a geração de pais atual quer dar tudo aos filhos, evitar broncas e fortalecer a autoestima com elogios frequentes. Porém o tiro está saindo pela culatra. Percebemos o surgimento de pessoas que toleram muito pouco as frustrações da vida, com baixa persistência, desistindo nas primeiras dificuldades e altamente dependentes de gratificações.

Um estudo realizado pela psicóloga Carol Dweeck, da Universidade de Stanford, citado na última semana pela revista Veja, mostra muito bem como isso acontece. Ela dividiu crianças em três grupos escolhidos aleatoriamente e aplicou as mesmas perguntas em 3 fases diferentes. A primeira fase era composta de perguntas muito fáceis. Após terminar de responder, era dito às crianças, independente do resultado, no primeiro grupo: “Você foi muito bem acertou mais de 80% das perguntas você deve ser muito inteligente”. No segundo grupo, ela disse: “Você foi muito bem acertou mais de 80% das perguntas você deve ter trabalhado muito duro para atingir esse resultado”. E, no terceiro grupo, apenas disse: “Você acertou mais de 80% das perguntas”.

Na segunda fase do estudo, eram perguntas muito difíceis e ela dividiu em grupos aleatórios novamente e independente do resultado disse às crianças e disse a todas que elas foram muito mal e acertaram menos da metade das respostas.

Na terceira fase, as crianças eram submetidas a várias perguntas e poderiam escolher quais queriam resolver e o resultado foi incrível.

O grupo de crianças que recebeu elogio pelo seu esforço teve uma melhora significativa nos resultados e escolhiam perguntas novas em que pudessem aprender mais. Enquanto que o grupo de crianças elogiadas pela sua inteligência teve um decréscimo nos resultados e escolhiam perguntas muito semelhantes as já respondidas na primeira fase.

O incrível deste estudo é como apenas uma frase muda o comportamento da criança nos estágios seguintes, levando-nos a imaginar o impacto disso quando ocorre repetidas vezes pela vida inteira. Percebemos com muita frequência, nas sociedades atuais, pessoas que foram muito bem treinadas e estudaram nos melhores lugares, mas permanecem a vida inteira em um trabalho medíocre e infeliz, com muito medo de enfrentar algo novo, desconhecido ou desafiador.

Sem dúvida, não precisamos voltar para o passado criando os nossos filhos de forma extremamente dura e sem carinho, mas temos que tomar cuidado com o tanto que estamos evitando que eles amadureçam e se preparem para lidar com as frustrações do futuro. Precisamos perder o medo de deixar que eles tomem alguns tombos, mas sim ensiná-los a levantar novamente e prosseguir em frente. Às vezes, quando uma criança chora ou está fazendo uma birra, os pais tendem a prontamente cessar o desconforto dela para que ela pare de chorar, mas será que isso é o melhor para ela? E, no caso das crianças maiores que têm menos habilidades que outras, há uma tendência a dizer para elas que são todas iguais, ou mesmo elogiar de forma falsa, será que isso não vai levar a um dificuldade da descoberta de suas verdadeiras potencialidades? Nunca vamos conseguir evitar os desprazeres para todo o sempre, por isso o melhor é ensiná-los a conviver e a evoluir com isso.

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