Tragédia, cinema e internação

DR. DOUGLAS MOTTA CALDERONI – PSIQUIATRA

Neste final de semana tivemos a morte de dois ícones do cinema. Gostava muito do trabalho de ambos. Philip Seymour Hoffman, ator com um talento incrível, vencedor do Oscar de melhor ator no filme “Capote” (2005),  foi encontrado morto em seu apartamento com mais de 20 seringas e 50 sacos plásticos, que provavelmente embalavam heroína, além de frascos de medicamentos controlados, de acordo com as primeiras notícias a respeito. Teria ele cometido suicídio? Teria sido uma overdose acidental?

Phillip havia saído recentemente de uma clínica de reabilitação para tratamento de sua dependência há cerca de oito meses.

Outro fato que nos entristeceu muito foi a morte do cineasta Eduardo Coutinho, assassinado no Rio de Janeiro e a principal suspeita é que seu filho de 41 anos tenha sido o autor do crime.

Daniel Coutinho, filho do cineasta, de 41 anos, tinha o diagnóstico de esquizofrenia e também há a suspeita de envolvimento com drogas. Teria tido uma reagudização do quadro psicótico por falha no tratamento? Teria abandonado o tratamento e, por isso, entrado em crise?  Será que ele não tomava os medicamentos? Teria tido um quadro psicótico, resultante do uso de drogas?

Não sei o que levou exatamente a estas duas mortes. Mas posso afirmar que ambas foram decorrentes de doenças psiquiátricas.  Não é comum os pacientes psiquiátricos se tornarem violentos, mas isso pode ocorrer. Apenas 5% dos crimes violentos são cometidos por pessoas com algum diagnóstico psiquiátrico. A grande maioria dos doentes psiquiátricos, mesmo os graves,  não comete crimes, não se suicida e não agride as pessoas.

A maioria das vezes, um surto psicótico grave não tem início de forma abrupta e, com isso, podemos intervir, tratando os pacientes, às vezes internando-os quando necessário, para evitar repercussões como estas.

A internação não é uma solução definitiva, como não foi no caso do ator norte americano, mas às vezes torna-se necessária para tratamento de crises agudas, nas quais a pessoa esteja se colocando ou colocando mais alguém em risco.

Você defende a internação psiquiátrica então? Isso não vai contra as formas modernas de tratamento? Porque isolar as pessoas da sociedade?

Vejam bem, sou a favor da internação psiquiátrica quando bem indicada e pelo tempo mínimo necessário para o tratamento de uma crise, que possibilite o retorno do indivíduo à sociedade, continue o tratamento em casa e volte o mais breve ao convívio social.

Não podemos cair na ideia sedutora que a internação é a única solução para o tratamento adequado, evitando assim tragédias como estas. Tampouco ir para o outro extremo, não menos sedutor, de que os pacientes não precisam de internação nunca e de que prender não leva a resultados. Cada caso deve ser avaliado e cada momento da doença merece o tratamento mais adequado.

Ainda não há uma fórmula definitiva. A avaliação de cada pessoa e seguir o tratamento ainda é o melhor que temos. Muitas vezes, não conseguimos prever o que irá acontecer, mas posso garantir que, com o tratamento adequado, as chances dos pacientes e familiares terem uma vida melhor e mais longa aumentam significativamente.

Posts Relacionados

2 comments

  1. Apesar de achar qualquer internação seja ela psiquiátrica ou não uma situação triste e que deve ser realizada e indicada com consciência; apoio sim a internação. Contudo, acredito na desqualificação de muitos locais de internação, por isso, a polêmica como esta.
    Em locais adequados, com áreas de reabilitação por exemplo, o retorno do paciente à realidade toner-se até mais rápido do que em outra situação.
    Claro que nenhum paciente deseja ser internado e dirá que não precisa principalmente depois de sair da crise principal, mas a interatividade e sobrecarga a uma família com paciente em crise até desumana de realizar-se.
    Uma mãe, um conjunge ou qualquer outro parente, muito provavelmente não saberão realizar um tratamento adequado em casa numa crise tão grave como aquelas que necessitam intenção.
    Sou a favor sim da internação e contra os locais desqualificados que vemos, até através da mídia por aí. E, apesar de ter algum dia dito ao contrário, o conhecimento sobre crises psiquiátricas me fez vê a realidade.
    Elizabeth Marçola Herrgen

    • Concordo com você, Elizabeth! Também defendemos que a internação seja feita em alguns casos e em alguns momentos do tratamento, ou seja, tem que ser bem indicada. Infelizmente ainda temos locais de internação bastante inadequados, mas acreditamos que essa realidade está mudando para melhor. Abraços. Karina

leave a comment