Um garotinho inesquecível e muitos sonhos espalhados pelo caminho

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Um garotinho inesquecível e muitos sonhos espalhados pelo caminho

PAULA SARETTA – PSICÓLOGA ESCOLAR

Ainda há grandes controvérsias quando se fala em inclusão escolar, principalmente em casos de crianças com transtorno do espectro autista. Alguns defendem a inclusão total na escola regular. Já outros colocam ressalvas, dizendo que poderia ser melhor, em alguns casos, o serviço escolar fora da rede regular de ensino[1].

Polêmicas à parte, ainda recém-formada fui trabalhar como psicóloga numa escola particular, localizada em um dos bairros nobres da cidade de São Paulo. Era uma escola relativamente pequena de Educação Infantil e Ensino Fundamental I. Naquele momento, a escola já existia há mais de 30 anos e era[2] conhecida por receber matrículas de crianças com necessidades educacionais especiais.

Meu desafio ao entrar na escola foi pensar em projetos interessantes a partir de algumas demandas e características de cada sala. Em uma das salas tinha um garotinho muito especial, que chamaremos de Rodrigo. Ele tinha 5-6 anos e frequentava uma sala multissérie, com crianças de 4-6 anos que ficavam juntas com duas professoras.

Logo que fui conhecer a sala, uma das professoras do Rodrigo me mostrou seu relatório médico (ainda tenho uma cópia guardada com outros materiais dele), que dizia que ele tinha “Síndrome de Asperger” e, portanto, “não sabia lidar com emoções e sentimentos, era instável, inflexível, tinha grande dificuldade em comunicar-se com as outras crianças, não conseguia “ler” o sentimento do outro, mas era muito inteligente, com alta capacidade de guardar fatos na memória.

A professora completou contando algumas cenas comuns de Rodrigo com as outras crianças da sala, dizendo que todas as vezes que elas [as crianças] tentavam se aproximar para brincar ou fazer alguma atividade, ele costumava esquivar-se e acabava ficando sozinho. No pouco tempo que fiquei ali observando, vi uma criança sozinha desenhando com muita força, quase rasgando o papel e que, em alguns momentos, levantava e ficava em um cantinho da sala repetindo alguns movimentos, como bater palmas (conhecido como movimentos estereotipados).

As demais crianças não pareciam incomodadas com a cena. Pelo contrário, percebendo que estava olhando para Rodrigo, algumas vieram me explicar que “ele sempre faz isso”. Sugeri que um deles fosse até o canto que estava o  Rodrigo e pedisse que ele viesse até mim para me conhecer, já que os demais estavam todos ao meu redor. Uma criança muito sorridente foi lá, tocou bem de leve no ombro do Rodrigo e o chamou, apontando em minha direção. Ele veio caminhando com seu colega e juntou-se ao círculo que estávamos fazendo no chão.

Naquele dia, contei para as crianças da sala quem eu era e o que iria fazer ali. Alguns me perguntaram: “você está aqui por causa do Rodrigo?” e respondi “não estou aqui só por causa dele, mas sim por causa de todos vocês”. E pedi que cada um dissesse seus respectivos nomes. Daí começamos uma brincadeira, cada vez que uma criança falava o nome, eu repetia: “estou aqui por causa do Rodrigo, do João, do Antônio…” Assim foi… Todos riam cada vez que eu errava ou esquecia algum nome.

Depois daquele dia, uma vez por semana eu trabalhava com aquela classe, sempre num projeto em conjunto com as professoras. Certa vez, fizemos um projeto pensando na promoção do desenvolvimento afetivo-emocional. Trabalhamos com jogos de expressões faciais e fizemos um mascote para a sala, com os olhos e boca de velcro (material colante), para que, entre outras coisas, as crianças mudassem de acordo com o humor que julgavam que o boneco estaria no dia.

Rodrigo participava de todas as atividades, às vezes com auxílio da professora assistente e, um dia, ele fez algo inesquecível e comovente.

Em uma das brincadeiras, que era preciso encontrar a expressão facial correspondente ao sentimento que eu estava sorteando (por exemplo, palavra “alegria” associada com expressões de pessoas sorrindo), ele foi até sua mesa e começou a desenhar em suas mãos.

As professoras e eu continuamos a brincadeira, mas estávamos de olho nele. De repente, ele voltou para a roda com os dedos de sua mão direita desenhados com expressões faciais, de alegria, de tristeza, de susto, etc.

Aí, algo mágico aconteceu… Lembram daquele garotinho num canto, sozinho, que tinha sérias dificuldades em comunicar-se com seus colegas? Então! Ele começou a “falar” de seus sentimentos usando os dedos das mãos. As crianças viram, reagiram imediatamente e entraram na brincadeira com ele, perguntavam algumas coisas e ele respondia mostrando as expressões de alegria, de tristeza, etc. desenhadas em suas mãos.

Logo depois, tivemos a ideia de fazer dedoches (fantoches de dedos) com as expressões desenhadas, já que a tinta da caneta sairia logo e não podíamos perder aquela oportunidade.

Nas semanas seguintes, as professoras e colegas da sala, quando perguntavam algo para o Rodrigo, pediam para que ele se expressasse usando os desenhos dos dedoches. Gradativamente, Rodrigo foi aprendendo a se comunicar por meio de seus sentimentos… Começou a reagir um pouco melhor em situações de frustrações e quando sentia-se contrariado. Sua família nos indicava melhoras significativas em casa também.

Já no final do ano, quando algumas crianças iriam mudar de sala e de professoras, fiz um trabalho de “despedidas” daquele grupo. Rodrigo veio até mim e me entregou os dedoches, já sujos e um pouco rasgados. Dei um abraço nele e perguntei: “você está me entregando porque não precisa mais disso?”, ele respondeu meio desconfiado, olhando pra baixo: “isso” e saiu.

Já se passaram quase dez anos do momento que conheci Rodrigo, mas enquanto escrevia este texto, seu rosto desconfiado e seu olhar firme não me saíam da cabeça. Lembranças reavivadas nesta semana, memórias que marcaram minha trajetória profissional e que me fizeram entender, concretamente, que o bom diagnóstico é essencial, mas a vida humana está muito além disso.

(…)

Há que se cuidar da vida
Há que se cuidar do mundo
Tomar conta da amizade
Alegria e muitos sonhos espalhados no caminho

(…)

(“Coração de estudante”, Milton Nascimento)

 


[1] Ver, por exemplo, as defesas da profa. Dra. Maria Tereza Eglér Mantoan,  da Faculdade de Educação da Unicamp.

[2] A escola, infelizmente, não existe mais. Teve que fechar as portas por questões administrativas.

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