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O vazio lá do fundo do peito

Essa semana estamos falando sobre as angústias da vida moderna e sobre como tentamos preencher a sensação de vazio muitas vezes de forma equivocada. Falar sobre angústia e vazio não é fácil, ainda mais quando se trata de crianças. Esse texto da psicóloga Paula Saretta, do site/blog Ouvindo Crianças traz uma bela reflexão sobre o assunto.

O menino que carregava água na peneira – Manoel de Barros

Tenho um livro sobre águas e meninos.

Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento

e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água

O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.

Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.

Falava que os vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito

porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que escrever

seria o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça,

monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.

A beleza da poesia autobiográfica do cuiabano Manoel de Barros, narra um menino introspectivo, que como ele diz, “gostava mais do vazio do que do cheio” e que, aos poucos, com o tempo, descobre que expressar-se pela poesia, na genialidade de suas palavras, poderia “salvá-lo” de uma possível tristeza. Sei que não é de bom tom interpretar poesias, cada um deve senti-la como quiser e puder. Mas para o propósito do nosso texto, tomei esta liberdade… Não sei para vocês, mas para mim, gostar mais do vazio do que do cheio sugere também uma criança triste, que teve uma trajetória solitária na infância.

Geralmente pessoas quietas tem muito barulho em suas cabeças, barulho que nem sempre é expressado pela fala, mas pode ser manifestado pela arte ou por algum hobby ou interesse.  Acho bom quando é assim… Ou seja, parece bom quando é manifestado de algum modo! Isso porque a possibilidade de significar, elaborar, entender ou refletir sobre o vazio que nomeamos de tristeza, é, sim, fundamental para nosso desenvolvimento emocional.

Mas nem sempre é fácil… Falar sobre nossas tristezas ou sobre perdas importantes é ainda mais difícil quando se trata de criança. Recentemente uma amiga-mãe me disse que fica muito abalada quando sua filha diz estar triste. Falamos sobre isso por aqui algumas vezes e reafirmamos que ficar triste não só faz parte da vida, mas também é fundamental para crescermos como pessoas. Mas, o que fazer diante de alguém que se sente assim? Acreditamos que aceitar, acolher, lamentar junto, já parece uma grande ajuda…

Em busca de ajuda para o enorme vazio que sentia, também caminhou Abril, personagem de um livro infantil que retrata lindamente o “vazio que sentimos no fundo do peito”, chamado “Lá no fundo do peito”, do autor e ilustradora mineiros, Mauro Martins e Marlette Menezes, editado pela Aletria Editora. O livro conta a história de uma menina (Abril) e seu cachorro, Kalunga, que vão em busca de “não sei o quê, para tapar o que você chama de um vazio lá no fundo do peito”. Pelo caminho, encontram outros animais e, por fim, uma bruxa. Em um certo momento, a bruxa que a princípio tinha parecido alheia à sua busca, oferece um suporte emocional. Diz que também, naquele momento, estava sentindo um vazio parecido com o dela. Mesmo sem querer, acaba ocorrendo uma ajuda mútua entre elas e Abril volta para a casa, pensando em tudo que aprendera e que pôde significar em sua caminhada. Ela aprende que o vazio não desaparece, mas pode ficar pequeno, tão pequeno que “não dava para passar nem a ponta de uma agulha”, como falou a bruxa.

A beleza do texto no livro sugerido, somado com o sentimento expressado em palavras por Manoel de Barros, exemplifica bem o que estamos defendendo: para que a perda ou a tristeza seja emocionalmente elaborada, é preciso sentir o vazio! Seja como for, escrevendo, conversando, ouvindo, etc.. Crianças, jovens e adultos, não tem idade para isso!

O desafio é encarar nossos medos e vivenciar o vazio que às vezes aparece, por mais fundo que seja. Tantas vezes, fundo demais para suportar a caminhada sozinhos. Se for assim, peça ajuda, como fez a menina Abril. De qualquer modo, não parece haver outro jeito para que ele diminua de proporção, a não ser caminhar com esforço e coragem, para não adoecer… Vamos encarar?

PAULA SARETTA – PSICÓLOGA ESCOLAR – www.ouvindocriancas.com.br

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